Sandra Vásquez de la Horra: desenhos mergulhados em cera

Jul 21, 2026
Sandra Vásquez de la Horra diante de desenhos em papel dobrado, em grande escala

Sandra Vásquez de la Horra teve individual em cartaz na Gomide&Co, em São Paulo, e integra Sonhos ao Sol – Miragens da Arte na América Latina, livro da Act Arte dedicado à arte onírica da América Latina: dois convites para entrar no universo da artista chilena.

“Vamos para perto da água”, disse Sandra à crítica e curadora Fernanda Morse, que a visitava em Berlim. O convite anunciava um método. Para entrar em sua obra, é preciso seguir a intuição e se conectar ao que há de vivo no mundo, cruzando as fronteiras entre humano e animal, corpo e espírito, sagrado e profano. Sua arte recusa as tradicionais divisões que organizam o pensamento ocidental e propõe, no lugar delas, um continuum. Caminhar, observar, deixar-se guiar: o percurso até a obra já é parte dela.

A cera como alquimia

Desde 1997, a artista finaliza seus desenhos mergulhando-os em cera de abelha. O banho de cera quente “tem a ver com alquimia”, ela explica. Para além do efeito de conservação sobre o papel, o procedimento intensifica a linha do lápis e produz uma profundidade translúcida que dá às figuras um corpo próprio, a meio caminho entre a pintura e a relíquia. Antes de chegar a essa síntese, ela experimentou fotografia, filme e performance, meios que acabaram condensados na economia do desenho. O papel deixa de ser superfície e passa a ter matéria, peso e presença.

Nos últimos anos, esse gesto ganhou volume. O papel se dobra, e o desenho vira casa, leporello, embarcação, altar. Em Marea Alta, dobras sinuosas fazem a imagem ocupar o espaço em três dimensões, e ondas, montanhas e partes do corpo se confundem num jogo de escala que a artista aproxima de René Magritte. Na 59ª Bienal de Veneza (2022), intitulada The Milk of Dreams / O Leite dos Sonhos, e na individual Soy Energía, na Haus der Kunst de Munique, que contou com curadoria de Jana Baumann e Marlene Mützel, os próprios desenhos passaram a ser as paredes de pequenas arquiteturas. O que era bidimensional tornou-se espaço a habitar.

Um cosmos sem fronteiras

Nascida em Viña del Mar em 1967 e formada sob a ditadura de Pinochet, Sandra cresceu entre matrizes que sua obra nunca separou. O cristianismo da escola católica italiana, a história da arte europeia e a ancestralidade Aymara de sua família convivem no mesmo plano. A elas somou, ao longo da vida, os orixás das religiões de matriz iorubá e os rituais de cura aprendidos em Cuba, onde foi iniciada na Santería no início dos anos 2000.

Esses universos não aparecem como citação, mas como gramática. Em Antepasado e Ancestral, as tranças das cholitas andinas se fundem à anatomia das figuras retratadas, evocando a linhagem familiar. Em Altares (RETABLO), o retábulo cristão portátil abriga Eleguá, o orixá das encruzilhadas. Natureza e cultura deixam de ser opostos. Tudo o que a humanidade construiu, sugere a artista, nasce do que é vivo, do que vibra, e separar uma esfera da outra é a origem do desequilíbrio que enfrentamos hoje.

O corpo como portal

O corpo é o território onde essa síntese acontece. Em El Yogui, uma figura em postura invertida ativa o chakra coronário, associado à consciência espiritual, e tons de violeta e vermelho atravessam a anatomia como circuitos de energia. A cor, para ela, nunca é decorativa: marca fluxos, estados de passagem, graus de elevação.

A artista também transpõe para o papel experiências de visão. Em Estrella de la Mañana, o corpo é formado pelo “arco-íris circular” que observou em Big Sur, na costa da Califórnia, e descreveu como a abertura de um portal espiritual. A mesma forma luminosa aparece em pinturas de areia dos Navajo e em mandalas tibetanas. Na obra de Sandra, o corpo não está separado do cosmos: é a sua antena.

El Yogui (2025), desenho de Sandra Vásquez de la Horra com figura em postura invertida em tons de violeta e vermelho

Os sonhos da América Latina

Esse é o território de Sonhos ao Sol – Miragens da Arte na América Latina, livro organizado por Fernando Ticoulat e publicado pela Act Arte. A publicação reúne cerca de 140 artistas para mapear um continente onde sonho, fantasia e irracionalidade constroem realidade.

A obra de Sandra Vásquez de la Horra pertence a essa linhagem, onírica e simbólica, atravessada por mitologias que recusam a divisão entre corpo e espírito. No livro, ela aparece ao lado de Frida Kahlo, Leonora Carrington, Remedios Varo e Wifredo Lam, entre outros nomes que também fizeram do sonho um método de investigação de mundo e manifestação criativa.

A trajetória da artista confirma o alcance desta pesquisa. Sua obra integra coleções como MoMA, Tate Modern e Centre Pompidou, passou pela 30ª Bienal de São Paulo (2012) e lhe rendeu o Käthe Kollwitz Prize em 2023. Apresentá-la junto aos artistas que compõem Sonhos ao Sol é afirmar uma genealogia: a de uma arte latino-americana que nunca separou o visível do invisível. Ver de perto seus desenhos na Gomide&Co é aceitar o convite para que comecemos pela água: a obra não se explica, se atravessa.

Capa e páginas do livro Sonhos ao Sol: Miragens da Arte na América Latina, da Act Arte

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