Transe

Aug 30, 2025
Transe

Apresentada por Gomide&Co e Act Arte, e com organização de Fernando Ticoulat, a exposição coletiva Transe parte do imaginário radical das décadas de 1960 e 1970, marcado pela contracultura, psicodelia, lutas sociais, descobertas científicas e busca espiritual, para propor um percurso que investiga a arte como meio ativo de reorganização dos sentidos, da linguagem e da percepção. 

Mais do que representar narrativas, as obras operam materializando transformação: energias que ganham corpo em formas, emoções, e estruturas, tornando-se matéria para, então, converter-se em linguagem. São trabalhos que vibram, condensam tempo e deslocam a percepção, abrindo espaço para uma dimensão simbólica e esotérica, na qual formas e cores se entrelaçam com o mundo sensível enquanto expressão de uma espiritualidade imanente que pulsa no encontro entre o olhar e a obra.


Transe é quando a forma vira força, quando o sensível afeta o real”

– Fernando Ticoulat, diretor-executivo da Act Arte e organizador da exposição


A exposição inclui obras de Antonio Dias, Amelia Toledo, Camille Sproesser, Cildo Meireles, Hércules Barsotti, José Resende, Karla Knight, Luiza Crosman, Mauro Restiffe, Megumi Yuasa, Mira Schendel, Montez Magno, Rubens Gerchman e Waltercio Caldas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Sobre Fernando Ticoulat


Fundador e diretor-executivo da Act Arte, Fernando Ticoulat desenvolve projetos que combinam experiência sensorial, pensamento crítico e inovação curatorial, com foco na valorização da arte brasileira e latino-americana. É responsável por exposições institucionais, direção de publicações premiadas — como é o caso de Bará, livro de Gustavo Nazareno, ganhador do Prêmio Jabuti na categoria Design Gráfico (2024), com projeto de Felipe Chodin — e catálogos raisonné de referência.

Sua prática curatorial parte do desejo de reencantar o mundo, criando espaços onde arte, memória e futuro dialogam por meio de obras que mobilizam afetos, provocam o sensível e atravessam temas urgentes como clima, tecnologia, espiritualidade e identidades plurais.

Texto Curatorial

 

I. Transe sabe que tudo é energia, e que toda energia vem do calor; que a energia vibra em espirais; carregada de informação, não é muda. Ao se mover, ela deixa rastros, organiza padrões, codifica-se. O que brilha na tela, o que pulsa na máquina, o que vibra no som, tudo traz em si um eco de calor, seja das estrelas ou do núcleo da terra. Energia não é apenas o combustível, ela é o próprio tecido vital que conecta todas as coisas. Ela não pode ser criada nem destruída, ela é eterna, imutável em sua quantidade, mutável em suas formas. A vida é esse circuito energético movido por fósseis de luz que se desfazem e se recompõem. Mas nada volta igual, ninguém pisa duas vezes no mesmo rio. Tudo retorna reinventado, latejando energia acumulada, convertida e modificada. Cada gesto artístico é uma reentrada de energia em novas formas, uma tessitura de realidades inéditas.

II. A irradiação do sol aquece, ativa, desperta; ela evapora a água, movimenta os ventos, alimenta as plantas e se converte em matéria viva, que é comida, decomposta e reciclada. O corpo dessa energia cósmica é o carbono. Ele conserva sua força para o futuro, o conector universal entre luz e matéria, interface que transforma a quentura em sensível, que ama, respira, sonha e morre. Como batimento cardíaco, o outro termo desse campo é o núcleo da terra, um forno que dobra a crosta, derrete minerais e empurra continentes, preparando o terreno para que o sol atue. Podemos vê-lo em vulcões, senti-lo em terremotos. Seu legado é a pedra, memória mineral da pressão, do tempo, do calor. O cristal é a síntese desse ciclo, energia em repouso, em ordem estável. É quando a energia para de circular e se solidifica em estrutura, mas que ainda vibra internamente, em silêncio. É um mediador, condutor, que modula a luz em impulso, o impulso em dado, o dado em linguagem.

III. O Campo é um ambiente relacional, âmbito de potências onde elementos interagem e se influenciam. O Campo é invisível, mas estruturante. Zona em constante movimento, sempre em tensão, onde matéria e significado coemergem. É pela sua dinâmica que se cria realidades. Todo campo é um sistema de energia direcionada por informação, esta é sua substância. Não existe informação sem contexto, sem campo, sem corpo. A informação não está nas coisas, no dado bruto, mas no relacionamento entre os elementos do campo. A folha é a informação da luz, a onda é a informação do vento, a ação é a informação da emoção, a estética é a informação do pensamento.

IV. Uma exposição é Campo, conjunto vivo, ativo e afetivo, simbólico e espacial, que condiciona a criação e a percepção. Mais do que palco, mais do que a soma de suas partes, é o agente sistêmico que direciona a informação de uma obra de arte. É um ponto de condensação, um fenômeno físico e político, técnico e metafísico, descarga de uma energia que circula e se expressa. Uma obra em uma exposição passa a existir relativamente a esse campo, ela se imanta. Máquinas de diferenciação, geradora de surpresas, itinerários de desejos. Um id que não se limita a ocupar um lugar no espaço objetivo – mas o transcende ao fundar nele uma significação nova. Pois a arte, como um objeto tecno-estético imanente, não se coloca fora do mundo, mas o reconfigura a partir de suas entranhas: energia, matéria, linguagem. A arte não é reflexo do mundo, definida por uma identidade fixa, como representação estática, mas um diálogo sublime entre o eu e o outro, um não sei o quê espiritual. Trata-se de uma necessidade humana ligada à existência, contribuindo em cada instante para a compreensão da relação homem-mundo. Seu propósito é estar em constante formação, atualizando-se continuamente, num procedimento que dá contorno ao que não pode, não consegue, ser dito. 

V. Transe é uma experiência, o próprio flagra da alquimia entre energia e informação, como quando o sopro se faz palavra, o trauma vira narrativa, a atitude vira arte. É mais que transmissão, é ultrapassagem, informação que se encarna, energia que altera, forma que modifica. Em Transe uma ideia nova se propaga na cultura, uma forma sensível – uma obra de arte – constrói subjetividade. Não há narrativa, não há o que interpretar, deixe-se sentir e refletir, de modo que a exposição nunca termina: ela reverbera em êxtase, como uma frequência que atravessa o corpo e se aloja na memória. Nada aqui é definitivo. Nada do que se viu é apenas imagem, é também acontecimento, energia que transmuta ao encontrar você. Depois disso, o mundo já não é o mesmo.

Serviço

De 30 de agosto a 15 de novembro de 2025
Gomide&Co
Avenida Paulista, 2644
Seg – Sex, 10h – 19h
Sáb, 11h – 17h

Sep 06, 20230 comentáriosFelipe Chodin