Natural de Natal (RN), Jota Mombaça é uma artista interdisciplinar cujo trabalho nasce da poesia, da teoria crítica e da performance. A matéria sonora e visual das palavras tem um papel central em sua prática, assim como a resiliência, resgate de memória e a efemeridade dos materiais. Sua obra incorpora críticas anticoloniais e formas de desobediência de gênero.
A artista está presente em duas frentes de destaque: no 39º Panorama da Arte Brasileira, no MAM São Paulo, e no livro 20 em 2020 – os artistas da próxima década, da Act Arte, que inclui um ensaio de Diane Lima — também à frente da curadoria do Panorama — sobre sua prática.
“Um dia eu vou voltar”
Comissionada para o Panorama, a instalação Um dia eu vou voltar (2026) é a primeira realização da série Ghosts em território brasileiro. A obra, a artista investiga a água e suas inquietações. Saiba mais:
Foram 222 metros de tecido submersos por quatro semanas em diferentes corpos d'água de Natal, com a participação de uma rede de guardiãs e guardiões indígenas e comunitários. Dessa imersão, surge a ideia de "radicalidade do afundamento", uma reflexão sobre água, memória, território e sobre as marcas deixadas pelas violências coloniais e práticas ambientais abusivas.
Sobre seu método, ela explica:
“Meu trabalho não revela o que tem debaixo d’água; ele cria oportunidade para que aquilo que está debaixo d'água intervenha no tecido e crie uma linguagem que é abstrata, e com essa linguagem que eu estou querendo me comunicar.”
A artista também chama atenção para a dimensão política do ato de imaginar:
“A gente vive em um contexto em que a imaginação não é acessível para todo mundo. Então, tem algo no exercício da possibilidade de imaginar e fazer que é uma forma de poder muito interessante, que requer muita responsabilidade e que requer muito cuidado. Tem uma dimensão discursiva, na minha prática, na minha existência, no tipo de trabalho ao qual eu estou me dedicando, mas tem também esse componente sensorial, visual, que eu estou feliz de poder apresentar no Brasil.”

Depois que tudo foi dito
A reabertura da sede do Museu de Arte Moderna de São Paulo vem com o 39º Panorama de Arte Brasileira: Depois que tudo foi dito, reunindo 33 artistas de 11 estados brasileiros.
Com curadoria de Diane Lima, a mostra questiona para onde a produção artística tem transbordado na busca por ampliar os limites da representação estética através de um exercício radical de imaginação. Nas palavras da curadora:
“A 39ª edição questiona como as práticas artísticas são capazes de manter o senso de urgência e a legitimidade das reivindicações políticas, dialogando com as mudanças que esses mesmos discursos têm gerado nos modos de fazer e pensar a arte.”
Mombaça devolve a provocação que dá nome à exposição:
"Depois que tudo foi dito, nos resta fazer algumas coisas. Porque a transformação que foi reivindicada e que de alguma forma causou o advento de tantas de nós aqui dentro é parte de um trabalho inacabado; as portas ainda abrem e ainda fecham. A história ainda vai deixar coisas de fora; a questão é saber quem, o quê, por quê, como. Existe uma complexidade da nossa ação da qual o discurso nem dá conta, e por isso eu insisto: depois que tudo foi dito, o que a gente faz? Tem muito a fazer.”
Quem está por trás da curadoria
Diane Lima é curadora, pesquisadora e uma das principais vozes do feminismo negro na arte latino-americana. Mestra em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e Pre-doctoral Mellon Fellow afiliada ao Critical Racial Anti Colonial Study Co-Lab no Department of Spanish & Portuguese Languages and Literatures na New York University, ela também assina a curadoria do Pavilhão do Brasil na 61ª Biennale di Venezia.
Sua prática concebe a curadoria como espaço para criar ambientes mais plurais e democráticos, dando visibilidade ao coletivo, às vivências em movimentos negros e ao feminismo negro, refletindo sobre a marginalização de processos, relações com a memória e referências às práticas ancestrais.
Ao seu lado, Giovanna Querido atua como gerente de projetos da curadoria da 39ª edição do panorama. Mestre em Arts Administration pelo Teachers College da Columbia University, bacharela em Jornalismo e pós-graduada em Gestão de Artes e Cultura pela Universidade de São Paulo, ela se dedica à curadoria, à gestão cultural e ao desenvolvimento institucional. Interessada nas relações entre arte, política e trabalho, promove redes de solidariedade baseadas na troca, na colaboração e na experimentação.
20 em 2020: Os Artistas da Próxima Década
A publicação da Act Arte reúne análises de críticos e curadores como Gerardo Mosquera, Kiki Mazzucchelli, Júlia Rebouças e José Esparza Chong Cuy, e apresenta um panorama de 20 artistas latino-americanos com o potencial de mudar o cenário das artes. Entre eles, está Jota Mombaça.
A premissa da pesquisa recaiu sobre uma pergunta de fundo: "O que é a América Latina?" Na publicação, Fernando Ticoulat questiona qual seria o recorte mais adequado para compreender um continente tão vasto e se é possível falar de uma voz artística latino-americana.
No ensaio dedicado a Mombaça, Diane Lima escreve:
“Mombaça funda, com sua requisitada presença dentro dos espaços institucionais, uma posição no entre das coisas, o que a torna parte fundamental de um movimento coletivo anticolonial: ao negociar os extremos entre uma experiência dissidente e o espaço da institucionalidade, coube à artista desenvolver a recusa como tecnologia de contenção ao crescimento da institucionalização nos processos coletivos dos quais participa.”
