Lucia Laguna: pintar o que se vê de onde se está

Oct 09, 2026
Lucia Laguna: pintar o que se vê de onde se está

A Act Arte recebeu, com muito pesar, a notícia do falecimento de Lucia Laguna em 21 de setembro, aos 85 anos, em sua casa no Rio de Janeiro. Natural de Campos dos Goytacazes (RJ), construiu uma obra marcada pela paisagem, memória e cotidiano. Em suas pinturas, fragmentos da cidade, casas, jardins e ruas se sobrepõem, em um trabalho ao mesmo tempo íntimo e aberto ao mundo.

Sua participação no livro Espaços de Trabalho de Artistas Latino-Americanos, a partir da entrevista a Beta Germano, nos leva, como leitores, para dentro do ateliê da artista, que revela seu processo criativo e sua relação com a paisagem carioca. 


Da sala de aula à pintura

A trajetória de Lucia Laguna no mundo da arte foi singular. Durante décadas, foi professora de língua portuguesa e literatura e, só aos 53 anos, quando já havia encerrado sua carreira como educadora, passou a se dedicar à pintura.

Frequentou a Escola de Artes Visuais no Parque Lage, no Rio de Janeiro, onde teve aulas com Luiz Ernesto e Charles Watson. E foi olhando pela janela de seu ateliê, em São Francisco Xavier, que encontrou o tema que definiria sua obra. Ela conta à jornalista e curadora Beta Germano sobre esse processo:

“Passei a estudar muito e percebi que, quando um artista faz uma escolha, é sempre um statement. Um dia, olhando por essa janela, me chamou atenção a diferença que existia entre a arquitetura da favela e a arquitetura convencional criada pelos arquitetos. Existia uma distância muito grande entre um e outro. A diferença é muito óbvia na paisagem da minha janela, e isso disparou alguma coisa em mim. Encontrei o tema da minha pintura.”


Paisagens sobrepostas

Em seus quadros, Lucia Laguna compartilhou conosco o seu mundo particular ao reconstruir as paisagens do Rio de Janeiro a partir do seu ponto de vista, sobrepondo partes da pintura, eliminando algumas e inserindo outras. Sobre o método, ela explica:

“Inicialmente, entrei nas linhas da arquitetura, pegando só blocos de cores para representar os prédios e as linhas estreitas e amontoadas da favela. Depois comecei a trabalhar com imagens recortadas e sobrepostas. Faço esses recortes de elementos externos e internos para sugerir esse encontro denso e muito próximo que acontece na cidade.”

Ao retratar a cidade que via todos os dias, seu trabalho se transformou junto com o crescimento urbano. Dos conflitos entre as construções, a artista chega à natureza, que avança mesmo diante da interferência humana:

“A paisagem, que toma lugar na cidade, também avança na pintura. E aí, isso já modifica alguma coisa. Agora estou olhando mais para o verde e não para o conflito das casas. [...] O verde vai interferindo, não para de crescer. Os micos e pássaros também se aproximam pela janela. A natureza que está vindo para cá por pressão ou simplesmente porque estamos dando espaço para ela.”


Espaços de trabalho

O ateliê de Laguna é parte de sua produção: nele, casa, jardim, cidade e paisagem se entrelaçam. Segundo Beta Germano, Laguna integra um grupo de artistas que “aventuram-se numa viagem mental e criam seus próprios universos, explorando elementos (físicos ou representados) desse realismo fantástico onde vivemos”.

Sua presença em Espaços de Trabalho de Artistas Latino-Americanos expõe o que o livro se propõe a fazer: revelar os espaços íntimos do fazer artístico e compreender as condições existentes para a materialização da obra de arte.