O mundo da arte em 2026: 4 tendências e um dinossauro

Feb 24, 2026
O mundo da arte em 2026: 4 tendências e um dinossauro

2026: sinais de transformação no mundo da arte

 

A Act é um escritório de inteligência em arte. Mas o que isso quer dizer?

De forma resumida, isso significa que nos dedicamos a observar as movimentações no mundo da arte. Não apenas o que viraliza nas redes ou o que bate recordes em leilão, mas os deslocamentos silenciosos, as estratégias que artistas e galerias começam a recalibrar e para onde o dinheiro — e o desejo — de fato está se movendo. Isto é, ficamos atentos ao que está rolando por trás dos panos, mas que já reverbera mundo afora.

Em 2026, as regras tradicionais do sistema seguem se afrouxando. As promessas fáceis se esgotaram, a realidade econômica impôs limites e, justamente por isso, novas formas de criar, circular e sustentar a arte começam a ganhar força.

Abaixo, confira tendências que sinalizam transformações no mundo da arte – nada abstratas, elas vão nos ajudar a entender como o campo da arte está se reorganizando — e por que essas mudanças importam para quem produz, pensa ou compra arte hoje.

1. O retorno do humano

Em contraposição à estética digital hiperpolida produzida por algoritmos, o mundo da arte passa a valorizar o gesto, a textura, a imperfeição e o tempo de feitura. Não como nostalgia, mas como resposta cultural ao excesso de telas e ao chamado “AI look”, que homogeneiza imagens e esvazia a experiência sensível.

Cresce o interesse por obras que carregam sinais claros de presença humana. A aposta recai sobre trabalhos que oferecem densidade material, escala íntima e uma relação direta com o corpo e o tempo. Esse movimento favorece práticas mais artesanais e técnicas historicamente associadas ao campo do fazer e do trabalho manual, como a cerâmica e a arte têxtil. A pintura também se reposiciona: avança menos na direção da imagem limpa e mais na afirmação do gesto, com superfícies espessas, camadas visíveis e marcas do processo.

Em 2026, “humano” não se coloca como oposição à tecnologia, mas como contrapeso. O que toca, pesa e deixa rastro volta a importar.

 

Obras de Shoko Suzuki. Foto: Edouard Fraipont

 

2. Artista S/A

Cada vez mais, artistas operam como empreendedores culturais. O acesso ampliado a ferramentas digitais de comunicação, visibilidade e agenciamento – somado a um mercado de vendas menos aquecido – faz crescer a autonomia em relação às estruturas tradicionais de galeria. Ou seja, o sucesso deixa de depender exclusivamente da representação formal e da circulação contínua de objetos no mercado primário. A galeria segue relevante como parceira estratégica, mas deixa de ser condição necessária para a sustentabilidade de uma prática artística.

Esse deslocamento também amplia as formas de financiamento e de viabilização do trabalho. Modelos de mecenato contemporâneo, como o comissionamento direto, o patronato recorrente e projetos financiados por comunidades, passam a ocupar um lugar central. Em vez de depender apenas da venda pontual de obras, muitos artistas estruturam sua produção a partir de relações de longo prazo, apoio contínuo e engajamento direto com seu público. O resultado é um ecossistema mais flexível, menos hierárquico e baseado em vínculos, no qual criação, comunicação e economia se articulam de forma mais integrada.

 

3. Depois do cubo branco

Para as galerias, é cada vez menos viável operar apenas como intermediários comerciais entre a obra e o comprador. Para sustentar relevância e viabilidade econômica, elas passam a atuar como plataformas culturais ampliadas. O modelo do “white cube” segue existindo, mas deixa de ser o centro exclusivo da operação. Conteúdo, programação e relacionamento passam a integrar o próprio valor oferecido.

Cultivar laços de comunidade torna-se um objetivo estratégico. Isso não significa intensificar festas, jantares ou eventos sociais pontuais, formatos que já não parecem capazes de gerar vínculos duradouros. A cena está saturada desse tipo de ativação. O desafio desloca-se para a construção de experiências contínuas, com densidade simbólica e consistência intelectual. Não há fórmula única. Algumas galerias investem em produção editorial própria, como revistas e podcasts. Outras apostam em exposições pop-up e projetos temporários, marcados pelo ineditismo e pela urgência.

Um exemplo dessa expansão para além do core tradicional é a Frieze. Para além das feiras, a empresa lançou a Frame, uma agência dedicada à criação de experiências culturais alinhadas a marcas e à economia criativa. Trata-se de um movimento de longo prazo, que aponta para a diluição das fronteiras entre arte, conteúdo e experiências curadas.

Em paralelo, cresce um movimento claro de alianças, co-representações e modelos de compartilhamento, capazes de reduzir custos e ampliar alcance e reputação. Iniciativas como o Condo demonstram que a colaboração pode ser mais sustentável do que a competição direta. Esses modelos fortalecem redes e constroem comunidades reais entre galerias de diferentes escalas. Em 2026, a capacidade de articular relações, gerar contexto e produzir valor cultural compartilhado será tão decisiva quanto a de vender obras.

 

4. O museu como garantidor

Mais no exterior que no Brasil, começa a ganhar tração um movimento até recentemente impensável: museus atuando diretamente no mercado de garantias de leilões [1], borrando a fronteira entre missão institucional e engenharia de mercado.

Um caso emblemático é o do Toledo Museum of Art que, desde 2023, vem realizando garantias de terceiros em lotes de leilão. O museu passou a fazer lances irrevogáveis apenas em obras que a instituição gostaria de incoporar ao acervo – claro, após avaliação curatorial e aprovação de comitês internos. Se o lance não for superado, o museu adquire a obra com desconto. Se outro comprador entra na disputa, a instituição recebe uma taxa financeira pela garantia prestada. Entre 2023 e 2024, a estratégia teria gerado mais de US$ 2 milhões em receita adicional.

A lógica é pragmática. Em vez de ver o mercado financeiro da arte como um território moralmente interditado, esses museus passam a tratá-lo como uma ferramenta viável para a sustentabilidade institucional, desde que alinhada a critérios curatoriais claros. O modelo transforma risco em oportunidade: ou a instituição fortalece sua coleção, ou cria uma nova fonte de receita em um contexto de orçamentos públicos e filantrópicos em retração. Estamos diante de uma nova fase, em que museus deixam de ser apenas observadores do mercado e passam a atuar, de forma seletiva e estratégica, no interior de sua engrenagem financeira.

 

5. Troféu Dinossauro 

Em 2026, o colecionismo de fósseis de dinossauro deixa de ser uma excentricidade episódica e se consolida como uma realidade de mercado. Casas de leilão como Sotheby’s e Christie’s já tratam esses exemplares como artefatos culturais de exceção, apresentados com a mesma dramaturgia e linguagem reservadas a obras-chave da arte moderna e contemporânea.

Em 2024, o esqueleto quase completo de um Stegosaurus, conhecido como Apex, foi vendido por US$ 44,6 milhões na Sotheby’s, estabelecendo o maior recorde já alcançado por um fóssil em leilão. Mais do que um preço, o dado indica uma nova fronteira de mercado: fósseis passam a competir, no imaginário e no capital simbólico, com os objetos mais disputados do colecionismo global.

O interesse vem sobretudo de compradores oriundos do universo da tecnologia e das finanças, menos presos às categorias tradicionais da história da arte e mais atentos à singularidade radical dos objetos, carregados de narrativa, espetáculo e potência simbólica. O fóssil oferece exatamente isso: não há edições, não há repetição, não há comparação direta. Cada exemplar é literalmente irrepetível.

Ao mesmo tempo, essa entrada agressiva no mercado suscita tensões éticas e institucionais. Paleontólogos e museus alertam para a perda de acesso científico e público a peças fundamentais da história natural. Em resposta, surgem modelos híbridos: compradores privados que emprestam fósseis a museus, fundações que adquirem exemplares para exibição pública e, mais recentemente, instituições que vendem ou garantem fósseis para financiar sua própria sustentabilidade. Em 2026, o fóssil de dinossauro não aparece apenas como curiosidade histórica, mas também como um novo tipo de obra-troféu, capaz de expandir os limites do que o colecionismo contemporâneo está disposto a incorporar.



[1] Uma garantia de leilão é um mecanismo financeiro usado para reduzir o risco do vendedor e dar previsibilidade ao resultado de uma obra levada a leilão.

Funciona assim: antes do leilão, uma obra recebe um valor mínimo garantido por um terceiro, geralmente por um valor significamente inferior à avaliação pública da obra. Ao oferecer a garantia, ele se compromete a comprar a obra por aquele preço caso nenhum lance superior apareça durante o pregão. Na prática, existem dois cenários:

1.          A obra não recebe lances acima da garantia, e o garantidor compra a obra pelo preço acordado.

2.          A obra recebe lances acima da garantia. O garantidor não compra a obra, mas recebe uma participação no upside do preço final como remuneração pelo risco assumido.

Para o vendedor, a garantia assegura um resultado mínimo. Para a casa de leilões, aumenta a atratividade do lote. Para o garantidor, trata-se de uma operação híbrida entre investimento financeiro e oportunidade de aquisição.