Do laranja ao azul: o livro de Wendy Andrade é finalista do Jabuti

Oct 26, 2026
Capa do livro Eu consigo te ver feliz, de Wendy Andrade, finalista do Prêmio Jabuti 2026

Há uma categoria do Prêmio Jabuti que não julga o que o livro diz, e sim como ele diz. Em Projeto Gráfico, o júri olha para a forma: a sequência das páginas, a tipografia, a cor, a relação entre imagem e texto. Na 68ª edição, que recebeu 4.675 obras e projetos inscritos, Eu consigo te ver feliz, livro de estreia do fotógrafo Wendy Andrade publicado pela Act Arte, está entre os cinco finalistas da categoria. O projeto gráfico é de Carlos Bocai, Julia B. Aguiar e Lucas D'Ascenção, e o resultado sai na terça-feira, 27 de outubro, em cerimônia na Sala São Paulo.

O salto como assunto

As fotografias foram feitas entre Salvador e o Rio de Janeiro. Mostram jovens negros saltando no mar a partir de plataformas improvisadas, em portos que um dia foram pontos de chegada de navios negreiros. O gesto central é o mortal, executado com destreza e alegria. Ana Paula Vitorio lê esse salto como metáfora de uma sobrevivência conquistada a cada dia. Eder Chiodetto chama as imagens de "coreofotografias".

Esses meninos, num salto, ressignificam toda a história.
- Wendy Andrade

O mar que foi rota de violência aparece aqui como lugar de lazer, invenção e liberdade. Um livro apressado reduziria essas imagens a ilustração de um tema. O desafio do projeto gráfico era outro: dar a cada página o cuidado que o fotógrafo dá aos meninos.

Fotografias no livro Eu consigo te ver feliz, de Wendy Andrade

Um dia inteiro, do laranja ao azul

O editor Vitor Casemiro organizou as imagens no ritmo de um dia. O livro abre no mar ao amanhecer e termina à noite. O projeto gráfico transforma essa sequência em cor: o laranja do nascer do sol dá lugar ao azul do dia, que escurece até a noite. A progressão atravessa também as páginas de texto, que mudam de tom gradualmente do começo ao fim. Quem folheia não percorre um catálogo de imagens. Atravessa um tempo.

Tipografia como voz

A fonte do livro é a The Neue Black, da Vocal Type, inspirada nos cartazes do Freedom Festival Against Slums and Segregation, realizado em Chicago em 1966 dentro da luta por direitos civis liderada por Martin Luther King. A referência não é anunciada ao leitor, mas sustenta a forma. Os designers resumem a escolha numa frase: tipografia também é voz.

A diagramação segue a mesma lógica. Wendy descreve a própria prática como algo que acontece entre o dito e o não dito. O livro trabalha essa tensão na página, alternando cheio e vazio, intensidade e serenidade, fotografia e poema.

Forma e assunto

Para a equipe de design, compor cada página com esmero era uma forma de dar protagonismo a meninos negros que o racismo insiste em tornar invisíveis. Esse é o ponto que a indicação ao Jabuti coloca em evidência: em Eu consigo te ver feliz, o projeto gráfico não embala as fotografias, prolonga o argumento delas.

O livro tem 176 páginas, capa dura, edição bilíngue em português e inglês e textos de Ana Paula Vitorio e Eder Chiodetto. A cerimônia do Jabuti terá transmissão ao vivo pelo canal da Câmara Brasileira do Livro no YouTube.

Conheça o livro