O mercado de leilões de arte sob a ótica dos dados: entrevista com os fundadores do iArremate
No final de 2025, a Act Arte publicou seu primeiro Relatório de Leilões de Arte do Brasil, mapeando o desempenho do setor entre 2021 e o primeiro semestre de 2025. O estudo revelou as oscilações do mercado, bem como suas transformações estruturais: ajustes na oferta, redistribuição por faixas de preço e mudanças no perfil dos compradores. Para compor essa análise, a Act Arte contou com dados fornecidos pelo iArremate, principal portal brasileiro de leilões de arte e colecionismo online, que agrega dezenas de casas leiloeiras e milhares de lotes mensais em uma única plataforma. Para entender melhor o que esses números revelam sobre o estado atual do mercado de leilões brasileiro e as perspectivas para os próximos anos, conversamos com Vinícius Villela e Thierry Chemalle, do iArremate.
A construção de um ecossistema digital para leilões
Fundado em 2014, o iArremate surgiu como solução para a fragmentação do mercado de leilões no Brasil. Antes, cada casa leiloeira tinha seu próprio site, seus próprios leilões presenciais e pouca visibilidade para além de sua base de clientes. "Percebemos que havia uma oportunidade de criar um ponto de convergência", explica Vinícius. "O comprador precisava visitar diferentes sites para acompanhar o que estava sendo leiloado. Nosso papel foi centralizar isso e tornar o acesso mais democrático."
Essa iniciativa teve consequências importantes. Além de ampliar a exposição das casas leiloeiras, o iArremate passou a gerar dados agregados sobre o mercado — algo praticamente inexistente até então. "Passamos a ter uma visão sistêmica do que estava sendo vendido, por quanto, para quem e com que frequência", diz Vinícius. "Isso nos permitiu entender padrões que nenhuma casa individual conseguia enxergar sozinha."
Hoje, o iArremate hospeda mais de 150 casas leiloeiras. O número médio de visitantes únicos por catálogo de leilão é de cerca de 25 mil pessoas, e a média de usuários que efetivamente fazem login para acessar o catálogo — demonstrando interesse concreto — é de aproximadamente 450. Ano passado, gerou quase R$100 milhões em vendas totais.
Rompendo a concentração geográfica do mercado de arte
Um dos impactos mais significativos da digitalização promovida pelo iArremate é a ampliação geográfica do mercado de leilões. Historicamente, o mercado de arte brasileiro é fortemente concentrado no eixo Rio-São Paulo, o que constitui uma barreira natural à formação de novos compradores em outras regiões do país.
"Quando você digitaliza o acesso aos leilões, rompe com essa geografia", explica Vinícius. "De repente, alguém em Porto Alegre, Recife, Brasília ou Curitiba tem acesso ao mesmo leilão que alguém em São Paulo. E mais: pode dar lances, acompanhar em tempo real e receber a obra em casa. Isso muda completamente a dinâmica."
Segundo Vinícius, a plataforma trabalhou ativamente para interiorizar o consumo de arte. Os dados confirmam essa transformação: hoje, cerca de 7% do volume de obras comercializadas vem de cidades do interior, embora o tíquete médio caia nessas regiões. Para o mercado de arte como um todo, essa descentralização representa uma oportunidade de crescimento sustentável, menos dependente da concentração tradicional de renda e interesse cultural nas duas maiores metrópoles do país.
"Estamos formando uma nova geração de colecionadores. Gente que descobre a arte através dos leilões online, começa comprando uma gravura de R$2 mil e, com o tempo, vai amadurecendo o gosto e o orçamento", diz Vinícius.
Internacionalização: ferramentas para levar leilões brasileiros ao exterior
Um movimento estratégico que vem ganhando forma no iArremate é a internacionalização da plataforma. O objetivo é atrair compradores estrangeiros e viabilizar que os leilões brasileiros vendam de forma mais ágil para o exterior. "Desenvolvemos uma solução integrada que combina logística e meios de pagamento para facilitar a compra e o recebimento de obras por clientes estrangeiros", explica Vinícius. O piloto inicial está focado em regiões específicas dos Estados Unidos e Portugal, mas já vem gerando resultados inesperados, como três lotes vendidos recentemente na Bélgica.
Segundo Vinícius, esse processo de internacionalização exigirá do iArremate uma compreensão profunda do funcionamento dos leilões no exterior e, principalmente, adaptação às questões de compliance internacional, que são levadas muito mais a sério do que no Brasil. "Nossa intenção é inovar, trazendo essa cultura de compliance com mais força ao mercado brasileiro. Isso pode ajudar a levar a arte brasileira para fora e a valorizar melhor nossos artistas", afirma.
Desafios da profissionalização
Apesar dos avanços, o mercado de leilões no Brasil ainda enfrenta desafios importantes de profissionalização. Um deles é a qualidade da catalogação. "Ainda vemos muitos lotes mal descritos, sem ficha técnica completa, sem proveniência, sem foto de qualidade. Isso afeta a confiança do comprador e o resultado da venda", aponta Vinícius.
A questão da autenticidade é particularmente sensível. "O Brasil precisa vencer o problema de ter, de fato, um meio de autenticação para as obras. É um erro na nossa legislação atual, especialmente quando herdeiros não conhecem a obra", afirma Vinícius. O iArremate já trabalha ativamente nessa frente: quando recebe uma denúncia sobre a autenticidade de uma obra, a plataforma tem, contratualmente, o direito de não veicular peças suspeitas. "Trabalhamos com a casa de leilão para verificar a procedência da obra e, na maioria das vezes, a casa opta por retirá-la do leilão até que a dúvida seja esclarecida", detalha Vinícius.
O iArremate mantém uma barreira de entrada rigorosa para as casas de leilão que desejam operar na plataforma, exigindo histórico e credibilidade do empresário por trás da operação. Essa filtragem, embora limite o mercado potencial, é fundamental para manter a credibilidade da plataforma.
O papel dos dados na construção de um mercado mais transparente
Ao longo de mais de uma década, a empresa acumulou um histórico de transações que permite mapear tendências, identificar padrões e antecipar movimentos — um ativo estratégico em um setor que ainda carece de inteligência de mercado consolidada. A parceria entre iArremate e Act Arte para a produção do Relatório de Leilões é um exemplo de como dados podem contribuir para a maturidade do setor. "Antes desse tipo de trabalho, as pessoas tomavam decisões no escuro. Não sabiam se um preço estava alto ou baixo, se um artista estava em alta ou em baixa, se o mercado estava aquecido ou retraído", diz Vinícius. "Agora, com dados consolidados, é possível tomar decisões mais informadas."
O iArremate Legacy, plataforma de analytics em lançamento, promete levar essa lógica ainda mais longe. "Vamos oferecer séries históricas de mais de 3 mil artistas, com indicadores de liquidez, de incremento de preço e de evolução temporal", explica Vinícius. "A ideia é que qualquer pessoa — colecionador, galerista, leiloeiro, investidor — possa consultar esses dados e tomar decisões baseadas em evidências, não em achismo."
O Legacy visa acabar com a opacidade do mercado, fornecendo números concretos para endossar as percepções dos diferentes agentes. "Embora o aspecto subjetivo da arte seja importante, o Legacy permite mensurar o comportamento do ativo, complementando a percepção subjetiva com embasamento técnico", diz Vinícius. O objetivo é aumentar a transparência e confiabilidade, o que, por sua vez, atribui maior valor às obras, removendo fatores que depreciam o ativo.
Mercado de leilões brasileiro: especificidades e desafios estruturais
A conversa também revelou aspectos estruturais que diferenciam o mercado brasileiro do global. Thierry Chemalle apresentou dados comparativos que mostram que a proporção de vendas em leilões no Brasil é de apenas 3% do total do mercado de arte, em contraste com 39% globalmente. Ele atribuiu isso ao fato do Brasil ser um país muito fechado em si próprio. Além disso, cerca de 80% dos compradores de arte no Brasil são nacionais, ao contrário dos grandes centros globais, onde a compra é internacionalizada.
Outro ponto relevante é a ausência de correlação entre o mercado de leilões brasileiro e indicadores macroeconômicos. As análises econométricas da Act Arte não encontraram correlações significativas entre variáveis como juros, inflação e câmbio e os resultados dos leilões. Thierry atribuiu isso à extrema desigualdade do Brasil, em que o mercado de arte é pequeno e funciona como um bem de consumo conspícuo para um público cativo e muito restrito.
Vinícius corroborou essa impressão, mas destacou que o "ânimo" e as notícias ruins têm um impacto perceptível na audiência dos leilões e na visitação dos catálogos, mesmo antes de qualquer impacto econômico mensurável.
Dados a serviço da inteligência de mercado
O que fica claro nesta conversa é que o iArremate não é apenas uma plataforma de intermediação. É também uma infraestrutura de dados que está ajudando a construir um mercado de leilões mais transparente, eficiente e acessível no Brasil. A cultura da empresa, resumida no slogan "aqui nós gostamos de arte", nasce da experiência de Vinícius como colecionador e se traduz em respeito ao mercado e em busca constante de profissionalização.
O Relatório de Leilões de Arte do Brasil é um exemplo do que pode ser feito quando dados são tratados com rigor analítico e com contextualização crítica. Mais do que números, o relatório oferece uma leitura interpretativa do mercado, identificando não apenas o que foi vendido, mas também como, por quê e para quem. É esse tipo de trabalho que ajuda a elevar o nível de maturidade de todo o ecossistema.
Para quem deseja se aprofundar nas dinâmicas do mercado de leilões brasileiro — seja como comprador, vendedor, pesquisador ou profissional do setor —, o Relatório de Leilões da Act Arte está disponível para consulta e oferece um panorama detalhado das transformações recentes e das perspectivas futuras. Em um mercado onde a informação ainda é escassa, iniciativas como essa não são apenas bem-vindas. São fundamentais.