Em meados dos anos 1960, em um terreno em Cotia, a ceramista nipo-brasileira Shoko Suzuki acendeu o primeiro forno noborigama construído no Brasil. A escolha não era apenas técnica. O noborigama, forno escalonado de tradição japonesa alimentado a lenha, exige um modo de trabalho. Queimas que podem ultrapassar trinta horas, atenção a variáveis que escapam ao controle: temperatura, cinzas, fumaça, posição da peça dentro da câmara. Toda a obra de Shoko se constrói nesse compasso de lentidão e repetição.
Sua trajetória, hoje reunida no livro Shoko Suzuki, percorre o que ela mesma chamou de pesquisa "a partir das mesmas bases". A frase aparece em entrevista inédita conduzida por Rachel Hoshino na casa-ateliê da artista em Cotia, e descreve com precisão o método: estudar materiais, esmaltes e formas não para variar repertório, mas para aprofundar o que já está dado. Esmaltes formulados a partir de cinzas e óxidos. Argilas escolhidas pelas reações específicas que cada uma desenvolve no fogo. Famílias formais que se repetem ao longo de seis décadas, vasos, jarros, taças, séries dedicadas a flores e folhas, com diferenças que só o olho treinado distingue.
O forno como método
O noborigama é o eixo dessa prática. Construído na inclinação de um terreno, com câmaras interligadas que recebem o fogo em sequência, o forno funciona como instrumento de variação controlada. Peças posicionadas em diferentes pontos absorvem temperaturas distintas e recebem depósitos de cinzas que alteram a superfície de modo singular. Trabalhar com noborigama é aceitar a queima como coautora. Shoko introduziu esse princípio no Brasil e dele extraiu uma das pesquisas mais consistentes da cerâmica brasileira contemporânea.
Liberdade pelo isolamento
Em ensaio incluído no livro, a curadora Tie Jojima lê esse percurso como gesto de liberdade pela via do isolamento. Imigrante japonesa que chegou ao Brasil em 1962, Shoko organizou a vida em torno do ateliê. Recusou a influência direta de outros artistas e professores; quis, nas palavras de Jojima, "encontrar a si mesma em seu trabalho". A biografia da artista é, em larga medida, a biografia das peças.
O livro
Organizado pelo pesquisador Eduardo Vasconcellos, Shoko Suzuki reúne pela primeira vez as séries fundamentais da produção da artista, cerca de noventa obras de fins dos anos 1960 ao presente, fotografadas em foto-still para que cada peça apareça como objeto de estudo. Aos textos de Vasconcellos e Jojima soma-se a entrevista de Hoshino, na qual a artista descreve o trabalho de fora para dentro: como construía, como secava, como queimava. É um documento raro de método.
O projeto gráfico é assinado por Felipe Chodin. São 224 páginas em edição bilíngue, português e inglês, com hierarquia tipográfica e respiro entre as imagens à altura da matéria: o livro respeita o ritmo da pesquisa em vez de impor um discurso sobre ela. A publicação tem co-realização das galerias Gomide&Co (São Paulo) e Salon 94 (Nova York).
Para quem acompanha cerâmica brasileira, esta é a primeira reunião da obra de Shoko em livro. Para quem chega à artista agora, é uma porta de entrada precisa: oferece o repertório visual da obra, o ensaio crítico que a situa e a voz da própria Shoko.
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