Em 1989, Marina Saleme pintou um díptico de 200 × 300 cm. No centro, uma cruz coberta por um véu, em tons esbranquiçados, flutua sobre um fundo carregado. A imagem não se revela: está ali e, ao mesmo tempo, se esconde. Esse gesto inaugural, o de revelar ocultando, atravessa quarenta anos de obra e organiza a monografia que a Act Arte publica agora.
Saleme constrói paisagens, retratos e cenas que oscilam entre a aparição e a recusa. A grade modernista comparece em sua pintura como estrutura e como obstrução, ora obediente à ortogonalidade, ora deslizando para a diagonal. As séries que percorrem o livro, entre elas O céu que nos protege, Sábado, As descabeladas e Apartamento s, exploram esse limite entre o que a imagem mostra e o que ela retém.
Duas vias: o solar e o lunar
Há duas direções em sua obra. Uma é o que Tadeu Chiarelli chama, no livro, de dimensão solar: pinturas sensuais, em tons metálicos e cromaticamente densas, que dialogam com Matisse e ironicamente reescrevem o orientalismo. A outra, lunar, opera por destruição e reconstrução: matrizes fotográficas e icônicas, como a Lamentação de Giotto e fotos publicadas em jornal, são desmanchadas e recompostas em centenas de pequenas pinturas dispostas em grade.
As descabeladas (2010-2012), hoje no acervo do MAC-USP, é um marco dessa segunda via. Apartamento s (2020-2021), exposta no CCBB-Rio e na Galeria Luisa Strina, fixou a figura de uma mulher com as mãos nos ombros como signo de um tempo de confinamento e perda.
Três entradas críticas
Organizada pela própria artista, a monografia traz ensaios de três autores que entram na obra por portas distintas. Felipe Scovino situa Saleme no contexto da pintura brasileira dos anos 1980, marcado pelo rastro do neoexpressionismo alemão e pela redemocratização. Ana Maria Belluzzo desenvolve uma leitura conceitual da poética da artista no ensaio ...pintura a dentro. Tadeu Chiarelli articula um texto crítico-experimental sobre representação, em que a permanência de uma figura na pintura de Saleme funciona como contraponto formal ao próprio ensaio.
Quarenta anos de trajetória
Saleme se formou em Artes Plásticas pela FAAP em 1982 e iniciou sua trajetória pública em 1985. Suas obras integram os acervos do MAC-USP, MAM-SP, MASP, Pinacoteca de São Paulo, MAM-RJ, MAM-BH e Itaú Cultural, entre outros. Entre 1997 e 2008 assinou a coluna Tendências e Debates da Folha de S. Paulo. Ensinou pintura no Instituto Tomie Ohtake entre 2002 e 2010. Em 2026 abre Ralo, sua nova individual na Galeria Luisa Strina.
