Chiara Banfi: quando o som se torna matéria

May 07, 2026
Chiara Banfi: quando o som se torna matéria

Buscando dar corpo para o intangível e sonoridade para o imperceptível — seja em suas experimentações instalativas, pictóricas ou escultóricas —, Banfi atua na confluência entre música e natureza.

Exercícios vocais cantados contra a parede para explorar o comportamento do som: talvez essa tenha sido a primeira performance sonora de Chiara Banfi. Era o início dos anos 2000 e ela ainda cursava artes plásticas na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), em São Paulo. Mais de vinte anos depois, radicada no Rio de Janeiro, essa relação com o universo sonoro nunca se dissolveu — ela se aprofundou e se tornou método.

Pedras que transmitem frequência

Em obras como Escala de Mohs (2015), Lin melódica Crs 37 (2015-2016) e Harsh Mind & Hurt Body (2019), Chiara Banfi dispõe pedras de quartzo — branco, fumê, obsidiana — interligadas por cabos conectores de áudio. A escolha dos materiais não é decorativa: é argumento. Seres inanimados são também capazes de transmitir vibrações e frequências. A música, aqui, não é som que se ouve — é presença que se sente, ou que escapa à percepção humana.

A justaposição entre natural e artificial é constante nesse corpo de trabalho. Cabos RCA encontram madeira imbuia, quartzo encontra amplificador. A natureza e a indústria falam a mesma língua — ou tentam.

O vinil como campo de investigação

Outra linha persistente na produção de Banfi é o vinil. Em Discos vazios (2013-2014), ela coleciona capas de disco sem estampas ou de gravadoras extintas — um monumento ao LP em vias de desaparecimento. Em Albers (2019), revisita essa investigação com outro gesto: agora é o elogio ao meio em ressurgimento, com uma brincadeira de sobreposição cromática que remete diretamente à pesquisa de Josef Albers.

Silêncio também é tema. Em Pausas de Bach 11 (2014-2016), Banfi pinta sobre partituras do compositor Johann Sebastian Bach, deixando apenas as pausas e os sinais de silêncio visíveis. O silêncio como sine qua non de qualquer melodia — condição, não ausência.

Elza

Em 2012, Chiara Banfi presenciou a gravação de Aquarela do Brasil por Elza Soares para o álbum Sonzeira – Brasil Bam Bam Bam (EMI Records, 2014). Em um dos takes, a voz de Elza falha — tremendo de emoção. Banfi escolheu justamente essa gravação como matéria-prima. Queria usar a voz a cappella da cantora, mas o violão havia vazado no microfone. Quase dez anos depois, um novo plug-in tornou possível limpar o fonograma. A partir daí, desenvolveu Elza – Aquarela do Brasil (2021-2022): discos "pintados" com a voz da intérprete, usando descartes e resíduos de LPs da fábrica Rocinante. Aquarelas de vinil que eternizaram visualmente a voz de Elza Soares — às vésperas de sua partida, em 2022.

Geometria sagrada e a linguagem comum

Nas séries de aquarelas Tríades e Portais (2024-2025), Banfi aproxima música e matemática — duas linguagens que, em sua essência, compartilham estrutura. Quadrados, círculos e triângulos que ecoam partituras; formas que têm ritmo, frequência, pausa. A investigação que começou com exercícios vocais contra uma parede chega, aqui, a uma síntese inesperada: o som como geometria do invisível.

Chiara Banfi em Máquina de Ritmo

O perfil de Chiara Banfi, escrito por Marina Dias Teixeira, integra Máquina de Ritmo - Som e Música na Arte Brasileira, publicação da Act Arte que mapeia artistas cujas práticas atravessam artes visuais e música. No caso de Banfi, essa travessia é literal: seu trabalho transforma o som em pedra, em tinta, em forma — e devolve ao silêncio toda a sua densidade.

Saiba mais sobre o livro Máquina de Ritmo - Som e Música na Arte Brasileira