PV Dias: cor, ritmo e resistência no tecnobrega e no carimbó

May 06, 2026
PV Dias Livro Maquina de Ritmo

"Gosto de olhar para esses fenômenos superfuturistas de Belém, essas esculturas de som, as cores, os figurinos ousados do tecnobrega. Isso me arrepia. Por isso, quero traduzir essa vibração visualmente, assim como Kandinsky dizia representar o jazz por meio de suas pinturas. Sempre me questiono: como seria um brega em forma de cor? Como pensar o ritmo pictoricamente?"

Nascido em São Paulo e radicado em Belém, PV Dias desenvolve uma prática visual que parte de uma pergunta: o que acontece quando a música — sua frequência, sua cor, seu gesto — é transposta para a superfície da pintura? A resposta atravessa gouache, acrílica, óleo, animação digital e escultura, e tem no Norte do Brasil seu principal interlocutor estético e político.

Aparelhagem: a festa como forma e argumento

A série Aparelhagem é o ponto de entrada mais imediato no universo de PV Dias. As obras documentam — e ao mesmo tempo constroem visualmente — as aparelhagens de tecnobrega de Belém: torres de som monumentais, iluminação extrema, figurinos, público. O artista não trata esses sistemas como fenômeno folclórico ou exótico. Para ele, são esculturas urbanas, arquiteturas efêmeras, dispositivos de festa que organizam um mundo próprio — com estética, hierarquia e política internas.

A Amazônia que aparece no trabalho de PV Dias não é floresta: é metrópole, é pop, é insurgente. Uma região que produz cultura de altíssima voltagem formal, mas que raramente é reconhecida pelos centros hegemônicos do sistema da arte.

Do pixel ao cipó: som e resistência

Em Tecnobrega a dança (2019), animação digital, PV Dias traduz a energia cinética da cena belenense em imagem em movimento. Já em Rádios-cipós (2023–), série de esculturas que combinam aparatos de rádio pirata com materiais orgânicos da floresta, o artista propõe uma fricção entre duas frequências: a tecnologia marginal e a matéria vegetal. O resultado são objetos que transmitem e que questionam — sobre quem fala, de onde, para quem.

Noite de pau e corda (2024), série de pinturas em óleo sobre tela, desloca o olhar para o carimbó — ritmo afro-indígena do Pará que, no início do século XX, foi perseguido e proibido pelas autoridades coloniais. PV Dias recupera esse episódio como imagem: noites de festa interrompidas pela violência, corpos que dançam apesar de tudo. A cor e o gesto pictórico funcionam como formas de resistência, não apenas como representação dela.

Ritmo como método

O que atravessa toda a produção de PV Dias é a ideia de que som e imagem compartilham uma estrutura interna: ambos têm ritmo, frequência, pausa. A referência a Kandinsky não é casual — é uma filiação metodológica. Assim como o pintor russo buscou equivalências visuais para a música, PV Dias investiga o que a vibração do tecnobrega, do carimbó e da festa belenense pode se tornar quando transposta para tinta, pixel ou cipó.

O resultado é uma obra que recusa a separação entre festa e política, entre alegria e luta, entre o superfuturismo das aparelhagens e a memória colonial dos ritmos reprimidos.

PV Dias em Máquina de Ritmo

O perfil de PV Dias, escrito por Yasmin Abdalla, integra Máquina de Ritmo - Som e Música na Arte Brasileira, publicação da Act Arte que mapeia artistas cujas práticas atravessam artes visuais e música. No caso de PV Dias, essa travessia é ao mesmo tempo estética e política: a música não é tema — é método de ver e de resistir.

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