"Sou um tropicalista no sentido visceral, um tropicalista na minha atuação em prol desse meio ambiente em que vivemos, na luta pelos símbolos de nossos povos originários e da diáspora africana."
Essa frase de J. Cunha define com precisão um artista que nunca tratou a forma como ornamento — mas como posição. Baiano, multidisciplinar e deliberadamente político, J. Cunha transita entre as artes plásticas, cenografia, figurino e o design gráfico com a mesma coerência. O eixo que atravessa toda essa produção é fixo: as heranças culturais africanas e indígenas que estruturam a identidade do Brasil.
25 anos no Ilê Aiyê
Entre 1980 e 2005, J. Cunha foi o diretor artístico do Ilê Aiyê, o bloco afro mais antigo do Brasil. Nesse período, desenvolveu a identidade visual completa do grupo — estampas, estandartes, carros alegóricos, figurinos, cartazes — respondendo graficamente a um enredo diferente a cada ano, sempre dentro de um vocabulário pan-africanista coeso. Angola, Senegal, Nigéria, a revolta dos Malês, dos Búzios, de Palmares: cada tema ganhou uma roupagem que o artista construía à mão, com pincel e rolo, antes da era digital.
Seu primeiro trabalho para o bloco, em 1980, foi o logotipo do Ilê Aiyê — criado sob orientação espiritual de Mãe Hilda Jitolu. A máscara africana que o compõe nasce dos ideais de ancestralidade e conduta. Os quatro búzios na testa representam a encruzilhada, origem de todo conhecimento. As cores — amarelo, branco, vermelho e preto — evocam Oxum, Oxalá, o sangue, o sacrifício e a pele negra. Mais de 45 anos depois, esse símbolo segue intacto.
Axé music, Daniela Mercury e a escala visual
Na virada para os anos 1990, J. Cunha ampliou seu campo de atuação para a indústria do entretenimento. Capas de discos e cenografias do axé music ganharam sua assinatura. A parceria com Daniela Mercury começou em 1992, para o lançamento de O Canto da Cidade — um cenário de 20 metros, feito à mão. Hoje, as mesmas criações são projetadas nas telas de LED dos grandes trios da cantora.
Pintura como arquivo vivo
Fora dos palcos, J. Cunha mantém uma produção pictórica que funciona como um arquivo em curso. Das manifestações populares do cordel aos símbolos dos orixás, seu painel Códice Brasil África (2011–2014) é um dos exemplos mais densos dessa pesquisa visual. O próprio artista se define como um "antropólogo popular": não escreve livros sobre identidade e ancestralidade — traduz isso em forma, em signo, em imagem.
J. Cunha em Máquina de Ritmo
O perfil de J. Cunha, escrito por Marina Dias Teixeira, integra Máquina de Ritmo - Som e Música na Arte Brasileira, publicação da Act Arte que mapeia artistas cujas práticas atravessam artes visuais e música. Mais do que uma convergência estética, o livro investiga como a música age como catalisador de produção visual — e J. Cunha é um dos casos mais eloquentes dessa relação.
Saiba mais sobre o livro Máquina de Ritmo - Som e Música na Arte Brasileira

Estampa de J. Cunha desenvolvida para o Ilê Aiyê