"O som é parte do corpo, porque o som tem corpo. Ele vibra no espaço, nos objetos, e isso também é escultura."
Paulo Nenflidio
Poucos artistas brasileiros habitam com tanta naturalidade a fronteira entre arte e ciência. Paulo Nenflidio (São Bernardo do Campo, 1976) constrói esculturas, instalações e objetos sonoros que parecem saídos de um laboratório científico — e de uma ficção científica ao mesmo tempo. Suas obras dissecam fenômenos físicos: som, frequência, movimento, silêncio. E fazem isso com precisão e invenção em medidas iguais.
Entre a engenharia e o ateliê
A formação de Nenflidio combina eletrônica e artes visuais. Técnico em eletrônica antes de cursar Artes Plásticas na Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), o artista carregou consigo a dupla herança: o rigor da construção técnica e a liberdade de criar sentido. Essa combinação é o núcleo de sua poética.
Na fronteira entre arte e ciência — disciplinas que o mundo moderno insiste em separar —, Nenflidio se posiciona como artista-inventor: alguém que domina todos os processos de suas criações, do projeto à execução, orquestrando de forma magistral o que acontece em seu ateliê.
Animais solares, máquinas de chuva e o silêncio como escultura
Com mais de 20 anos de carreira, Nenflidio desenvolveu uma poética própria que envolve som, eletrônica, movimento, construção, física, automação, matemática e improviso. Esses conceitos se materializam em obras como Música dos ventos (2003), sistema que transforma energia eólica em música, e Ensaio da chuva (2014), escultura sonora que simula a dinâmica da chuva por meio de circuitos eletrônicos e sensores de evaporação — criando uma paisagem acústica que oscila entre o ruído, o silêncio e o desejo de purificação da água.
Outro aspecto central é o silêncio — trabalhado não como ausência, mas como presença. Em 4,33 m (2017), um pêndulo de madeira em movimento contínuo se aproxima de uma taça de cristal com água, tocando-a de forma quase imperceptível: suficiente para provocar ondas visíveis na superfície, mas nenhum som audível. O título alude diretamente à célebre composição silenciosa de John Cage, 4'33'', propondo uma tradução espacial do tempo: o comprimento do pêndulo converte duração em distância. A obra exige desaceleração, atenção, suspensão.
Neurocórdio e a escuta do invisível
Em Neurocórdio (2019), Nenflidio desenvolveu uma instalação sonora interativa composta por monocórdios ativados por ondas cerebrais. O som emerge do estado de concentração do espectador-participante, instaurando um ciclo de retroalimentação entre atenção, escuta e criação musical. O corpo do público se torna parte do instrumento.
Esse gesto inventivo traduz uma ideia central no trabalho do artista: a escuta é sempre uma experiência sensorial, espacial e filosófica — um tempo elástico que exige atenção plena. "Eu não produzo máquinas para resolver problemas. Realizo máquinas que fazem pensar" — instrumentos a serviço de uma sensibilidade inventiva que insiste em imaginar futuros a partir da escuta.
Paulo Nenflidio em Máquina de Ritmo
O perfil de Paulo Nenflidio, escrito por Yasmin Abdalla, integra Máquina de Ritmo - Som e Música na Arte Brasileira, publicação da Act Arte que mapeia artistas cujas práticas atravessam artes visuais e música. Mais do que uma convergência estética, o livro investiga como a música age como catalisador de produção visual — e Nenflidio é um dos casos mais radicais dessa relação.
Saiba mais sobre o livro Máquina de Ritmo - Som e Música na Arte Brasileira