Sandra Vásquez de la Horra teve individual em cartaz na Gomide&Co, em São Paulo, e integra Sonhos ao Sol – Miragens da Arte na América Latina, livro da Act Arte dedicado à arte onírica da América Latina: dois convites para entrar no universo da artista chilena.
“Vamos para perto da água”, disse Sandra à crítica e curadora Fernanda Morse, que a visitava em Berlim. O convite anunciava um método. Para entrar em sua obra, é preciso seguir a intuição e se conectar ao que há de vivo no mundo, cruzando as fronteiras entre humano e animal, corpo e espírito, sagrado e profano. Sua arte recusa as tradicionais divisões que organizam o pensamento ocidental e propõe, no lugar delas, um continuum. Caminhar, observar, deixar-se guiar: o percurso até a obra já é parte dela.
A cera como alquimia
Desde 1997, a artista finaliza seus desenhos mergulhando-os em cera de abelha. O banho de cera quente “tem a ver com alquimia”, ela explica. Para além do efeito de conservação sobre o papel, o procedimento intensifica a linha do lápis e produz uma profundidade translúcida que dá às figuras um corpo próprio, a meio caminho entre a pintura e a relíquia. Antes de chegar a essa síntese, ela experimentou fotografia, filme e performance, meios que acabaram condensados na economia do desenho. O papel deixa de ser superfície e passa a ter matéria, peso e presença.
Nos últimos anos, esse gesto ganhou volume. O papel se dobra, e o desenho vira casa, leporello, embarcação, altar. Em Marea Alta, dobras sinuosas fazem a imagem ocupar o espaço em três dimensões, e ondas, montanhas e partes do corpo se confundem num jogo de escala que a artista aproxima de René Magritte. Na 59ª Bienal de Veneza (2022), intitulada The Milk of Dreams / O Leite dos Sonhos, e na individual Soy Energía, na Haus der Kunst de Munique, que contou com curadoria de Jana Baumann e Marlene Mützel, os próprios desenhos passaram a ser as paredes de pequenas arquiteturas. O que era bidimensional tornou-se espaço a habitar.
Um cosmos sem fronteiras
Nascida em Viña del Mar em 1967 e formada sob a ditadura de Pinochet, Sandra cresceu entre matrizes que sua obra nunca separou. O cristianismo da escola católica italiana, a história da arte europeia e a ancestralidade Aymara de sua família convivem no mesmo plano. A elas somou, ao longo da vida, os orixás das religiões de matriz iorubá e os rituais de cura aprendidos em Cuba, onde foi iniciada na Santería no início dos anos 2000.
Esses universos não aparecem como citação, mas como gramática. Em Antepasado e Ancestral, as tranças das cholitas andinas se fundem à anatomia das figuras retratadas, evocando a linhagem familiar. Em Altares (RETABLO), o retábulo cristão portátil abriga Eleguá, o orixá das encruzilhadas. Natureza e cultura deixam de ser opostos. Tudo o que a humanidade construiu, sugere a artista, nasce do que é vivo, do que vibra, e separar uma esfera da outra é a origem do desequilíbrio que enfrentamos hoje.
O corpo como portal
O corpo é o território onde essa síntese acontece. Em El Yogui, uma figura em postura invertida ativa o chakra coronário, associado à consciência espiritual, e tons de violeta e vermelho atravessam a anatomia como circuitos de energia. A cor, para ela, nunca é decorativa: marca fluxos, estados de passagem, graus de elevação.
A artista também transpõe para o papel experiências de visão. Em Estrella de la Mañana, o corpo é formado pelo “arco-íris circular” que observou em Big Sur, na costa da Califórnia, e descreveu como a abertura de um portal espiritual. A mesma forma luminosa aparece em pinturas de areia dos Navajo e em mandalas tibetanas. Na obra de Sandra, o corpo não está separado do cosmos: é a sua antena.

Os sonhos da América Latina
Esse é o território de Sonhos ao Sol – Miragens da Arte na América Latina, livro organizado por Fernando Ticoulat e publicado pela Act Arte. A publicação reúne cerca de 140 artistas para mapear um continente onde sonho, fantasia e irracionalidade constroem realidade.
A obra de Sandra Vásquez de la Hora pertence a essa linhagem, onírica e simbólica, atravessada por mitologias que recusam a divisão entre corpo e espírito. No livro, ela aparece ao lado de Frida Kahlo, Leonora Carrington, Remedios Varo e Wifredo Lam, entre outros nomes que também fizeram do sonho um método de investigação de mundo e manifestação criativa.
A trajetória da artista confirma o alcance desta pesquisa. Sua obra integra coleções como MoMA, Tate Modern e Centre Pompidou, passou pela 30ª Bienal de São Paulo (2012) e lhe rendeu o Käthe Kollwitz Prize em 2023. Apresentá-la junto aos artistas que compõem Sonhos ao Sol é afirmar uma genealogia: a de uma arte latino-americana que nunca separou o visível do invisível. Ver de perto seus desenhos na Gomide&Co é aceitar o convite para que comecemos pela água: a obra não se explica, se atravessa.
Saiba mais sobre o livro Sonhos ao Sol
