Em cartaz no Masp entre 6 de março e 2 de agosto de 2026, Claudia Alarcón & Silät: viver tecendo reúne 25 obras nascidas do entrelaçamento de mais de cem mãos Wichí.
Há uma frase de Claudia Alarcón que funciona como epígrafe para toda a sua obra: "embora teçamos em silêncio, tudo está dito no tecido". Suas criações nascem do chaguar, fibra de uma bromélia nativa do Gran Chaco, entrelaçada à mão, sem tear.
Com curadoria de Adriano Pedrosa e Laura Cosendey, a exposição marca a estreia da artista no Brasil. Alarcón integra Sonhos ao Sol – Miragens da Arte na América Latina, publicação da Act Arte.
Um coletivo, cem mãos, uma só voz
Mais de cem mulheres Wichí, das comunidades de La Puntana e Alto La Sierra, no norte da Argentina, transformaram o ato ancestral de tecer em arte de resistência e reinvenção.
Em Hilulis ta lhayämetwek — Un coro de yicas, as bolsas yicas, utensílios cotidianos, tornam-se obra. Mais de uma centena delas, suspensas na parede do museu, cada uma feita por uma mulher, cada uma única em cores e padrões.
Mulheres-estrelas e a transmissão de saberes
A mitologia atravessa a exposição como um fio que nunca se rompe. Em Kates tsinhay — Mujeres estrellas, as tecelãs evocam o mito das mulheres que um dia foram astros no céu. Todas as noites desciam à Terra por cordas que elas mesmas haviam tecido com fios de chaguar, até que os homens cortaram os fios. Ficaram presas à Terra, mas seguiram tecendo.
Entre as mulheres Wichí, a transmissão de saberes acontece na prática cotidiana: enrolar a fibra, tingi-la com anilina ou resina do tronco de algarobas, recuperar o ponto antigo, uma torção mais elaborada e quase esquecida, resgatada com a paciência de quem reata uma herança.
O tayhi como matéria e como mundo
A experiência no território tayhi ("monte", em espanhol) se faz matéria-prima. Dele vêm os pigmentos, o azul resinoso da algaroba, o rosa fugidio das anilinas. Dele vêm também as formas: olho de coruja, orelha de tatu, casco de tartaruga.
Em Kyelhkyup — El otoño e Fwuyetil — El invierno, dispostas lado a lado, tece-se a própria experiência de viver no tayhi, com as mudanças de tom, textura e luz na passagem das estações.
Quando o fio se faz voz
Claudia Alarcón & Silät preservam um saber ancestral ameaçado pela precarização e pelo apagamento e, ao mesmo tempo, o reinventam, inserindo-o em um repertoório contemporâneo, poético e político.
Em N'äyhay wet layikis — Caminos y cicatrices, tecida em 2025 para a comemoração da independência argentina, a arte torna-se bandeira ao denunciar a repressão violenta que o Estado argentino impôs às populações indígenas.
Uma das inovações dessas obras é a decisão de deixar visíveis as emendas entre os segmentos tecidos por diferentes mulheres, as chamadas layik ("cicatrizes"). Em Oyhil ta iwo lhipa — Nuestros tejidos unidos, elas aparecem no centro da obra.
Arte latino-americana
A obra de Claudia Alarcón & Silät e o livro Sonhos ao Sol partem do mesmo pressuposto: a imaginação latino-americana não é ornamento, mas instrumento de afirmação identitária e de crítica histórica.
Sonhos ao Sol – Miragens da Arte na América Latina percorre o maravilhoso, o oculto e a magia como formas de conhecimento. As obras no Masp dizem o mesmo em chaguar tingido com anilinas e pigmentos naturais.
Claudia Alarcón & Silät: viver tecendo. Masp, 6 de março a 2 de agosto de 2026. Curadoria de Adriano Pedrosa e Laura Cosendey.
Saiba mais sobre o livro Sonhos ao Sol
