MAHKU: quando os cantos Huni Kuin se tornam pintura

Apr 24, 2026
MAHKU: quando os cantos Huni Kuin se tornam pintura

"A música para os Huni Kuin é mais que uma manifestação artística: é dispositivo de memória e mediação espiritual." – Paula Nunes

Entoados há gerações, os cantos tradicionais dos Huni Kuin ecoam nos rituais do povo que os mantém vivos — presentes no plantio de grãos, nas preparações para a caça, na busca pela cura. Na produção artística do MAHKU (Movimento dos Artistas Huni Kuin), esses mesmos cantos assumem a forma de desenhos, pinturas e murais: corporificam um modo de pensar e preservar conhecimento ancestral, e tornam-se movimento e estratégia de sobrevivência.

Um povo, uma resistência

Os Huni Kuin são povos originários localizados na fronteira entre o Brasil e o Peru, no coração da Floresta Amazônica. Sua história é também uma história de violência colonial: no século XVIII foram alvo das primeiras expedições escravistas; a partir da década de 1890, explorados como mão de obra nos seringais. Em 1951, viajantes alemães estimaram que a população total não passava de 500 pessoas. Hoje, na casa das 14 mil, os Huni Kuin são a população indígena mais numerosa do Acre — e ocupam um território demarcado de aproximadamente 655 mil hectares, conquista apoiada pelo MAHKU, que adotou o lema "Vende tela, compra terra".

Mesmo após séculos de apagamento cultural, a música ancestral permaneceu viva. Sua preservação foi possível sobretudo pelo trabalho de Tuin Huni Kuin, pesquisador responsável por salvaguardar saberes musicais e rituais que corriam o risco de desaparecer. Nos anos 2000, seu filho Ibã Huni Kuin iniciou uma pesquisa de documentação desses cantos, com apoio da Universidade Federal do Acre (UFAC).

Da canção à pintura

Traduzir os cantos para o português mostrou-se insuficiente: o conhecimento perderia a qualidade rítmica que caracteriza os rituais. Era necessário encontrar uma linguagem que mantivesse o sagrado operante, sem filtrá-lo por outras lentes. A pintura se revelou esse meio. O MAHKU foi fundado oficialmente em 2013.

O movimento — que não se considera um coletivo, mas um conjunto de indivíduos movidos pela mesma causa — concentra sua produção nos cantos que acompanham cada etapa do ritual do Nixi pae (Ayahuasca): músicas que chamam a força do cipó, guiam as mirações e conduzem o ritual até seu fim.

Pintura como partitura viva

As telas do MAHKU funcionam como partituras desses cantos. Realizadas muitas vezes coletivamente, são fórmula viva — guias que conduzem visualmente pelas mirações. Cada obra incorpora elementos do Kene Kuĩ, conjunto de conhecimentos ritualísticos e técnicas envolvidos na produção dos padrões gráficos que compõem o traçado das pinturas.

O uso de cores vibrantes, ligadas ao caráter psicodélico das mirações, realça a coexistência entre animais, plantas, humanos e paisagens que convivem em um mesmo plano, sem cronologia entre os tempos ou hierarquia entre seres. Assim, ver torna-se uma forma de escutar — atentamente — o modo de pensar e existir Huni Kuin.

MAHKU em Máquina de Ritmo

O perfil do MAHKU, escrito por Paula Nunes, integra Máquina de Ritmo - Som e Música na Arte Brasileira, publicação da Act Arte que mapeia artistas cujas práticas atravessam artes visuais e música. No caso do MAHKU, essa relação é indissociável: a pintura não ilustra os cantos — ela os é.

Saiba mais sobre o livro Máquina de Ritmo - Som e Música na Arte Brasileira

 

Yube Inu Yube Shanu [Mito do surgimento da bebida sagrada Nixe Pae], 2020