Raphael Fonseca na 37ª Bienal de São Paulo: o curador que organizou o livro de André Griffo pela Act

Apr 30, 2026
Livro André Griffo, organizado por Raphael Fonseca

A Fundação Bienal de São Paulo anunciou que Amanda Carneiro e Raphael Fonseca serão os curadores-chefes da 37ª Bienal de São Paulo (2027). 

A Act registra a notícia com entusiasmo. Em 2023, publicamos o primeiro livro monográfico de André Griffo, organizado por Raphael Fonseca. O ensaio que abre o volume é uma das leituras mais consistentes já feitas sobre o artista, e ajuda a entender por que Fonseca chega à Bienal com tanta força.

O ensaio sobre André Griffo: uma chave de leitura

O livro publicado pela Act reúne quinze anos de produção de André Griffo. O texto de Fonseca, Falando com os mortos, organiza a obra em quatro fragmentos, cada um nomeado por uma frase que o próprio artista escreveu sobre suas telas.

A tese é direta. Griffo carrega, em muitas pinturas, figuras humanas que seguram uma linha. De um lado, a linha demarca território; de outro, se enovela em um emaranhado. Para Fonseca, é uma metáfora do método do artista: pintar é puxar fios da história, sobrepor temporalidades, e admitir que o caminho de volta nem sempre é linear.

A partir daí, o curador reorganiza a trajetória de Griffo em quatro deslocamentos:

  • Substituir os chifres. O artista-arquiteto vira artista-açougueiro. Parafina, ferro, sucata, animais abatidos. Uma fisicalidade que carrega o fantasma da violência.
  • Acidentes não são territórios. O artista-historiador. Ruínas povoadas por citações ao gótico, ao Renascimento, à pintura ocidental. Aparece, simultaneamente, a entrada da história colonial brasileira na obra.
  • A quem devo pagar minha indulgência? O artista-sociólogo. A Santa Casa de Misericórdia do Rio como metáfora estrutural: a aliança entre Igreja e Estado na exploração do trabalho escravo, e suas continuidades no Brasil contemporâneo.
  • Voarei com as asas que os urubus me deram. O artista-psicólogo. Vendedores de miniaturas em ambientes subterrâneos, jornais bolsonaristas, melancolia e cansaço. A pergunta deixa de ser sobre o passado e passa a ser sobre o presente.

A leitura de Fonseca recusa o tom propagandista que costuma capturar artistas em momentos de crise política. Ele lê Griffo como um pintor que conversa com os mortos para entender os vivos, e sustenta que, na obra, não há verbos no passado: há ciclos, às vezes orgânicos, às vezes abruptos, em espiral.

Por que isso importa agora

A escolha de Fonseca para a Bienal não é uma surpresa para quem acompanha o circuito, mas confirma uma direção: curadores brasileiros formados na pesquisa rigorosa e na crítica de instituições estão assumindo as principais cadeiras do sistema internacional. O livro de Griffo é uma evidência dessa metodologia em formato editorial. É curadoria escrita.

Para quem quer entender como Fonseca pensa antes de chegar a 2027, o ensaio é um ponto de partida concreto.

André Griffo, organizado por Raphael Fonseca

Publicado pela Act em 2023. Organização de Raphael Fonseca, com texto de Lilia Moritz Schwarcz e poemas de André Capilé. Edição bilíngue.

Saiba mais sobre o livro André Griffo